10 de dezembro de 2009

Belo Horizonte




                                                        me encanta
             essa cidade         me espanta
                                       me grita


                           eu menina do interior
sou tomada por essa cidade
sou bebida 
                  e degustada
 e depois cuspida fora
 tornando-me
uma pessoa 
                       diferente


porque nesta cidade 
colorida
nesta cidade cheia de gente e luz
eu aprendo a ser mais eu
no que re e n c o n t r o 
e descubro
no que revejo 
e no que me 
delicio


essa cidade me lê

8 de dezembro de 2009

Amar




É como subir num parapeito, se jogar em queda livre e 
cair,
cair 
e cair
 sem ver final.

Amarrar fitas do senhor do Bonfim 
num ventilador e ver seus pedidos entregues ao vento ainda que em pensamento...

Subir uma escada gigante e perceber, já lá em cima, 
que se esqueceu o chapéu de sol e sair mesmo assim sem ele,

                       e queimar a pele, e queimar a voz.

Ser feliz sem pressa, porque há um quê nos apaixonados que os deixam num ritmo particular e lento
tipicamente pueril e doce,como se a vida inteira parasse para ver e ler nos nossos olhos a verdade.

É correr perigo, beber nos olhos da noite, sair à toda na rua e ter medo,
 melhor, ter medo de ter medo e ter medo mesmo assim...

É como sentar num banco sujo de tinta

beber café sem açúcar

e morrer de vontade no fim da tarde...

É ter fome no inverno e sede no verão
é dançar de olhos fechados e sonhar de olhos abertos
ou até mesmo escrever palavras desconexas num blog igualmente desconexo

como estou a fazer
agora.

17 de novembro de 2009

Palavras com asas


Carta a Manuel Bandeira, S.Paulo, 28-III-31


Manú,
Bom-dia. Amanhã é domingo pé-de-cachimbo, e levarei sua carta, (isto é vou ainda relê-la pra ver se a posso levar tal como está, ou não podendo contarei) pra Alcântara com Lolita que também ficarão satisfeitos de saber que você já está mais fagueirinho e o acidente não terá conseqüência nenhuma. Esse caso de você ter medo duma possível doença comprida e chupando lentamente o que tem de perceptível na gente, pro lado lá da morte, é mesmo um caso sério. Deve ser danado a gente morrer com lentidão, mas em todo caso sempre me parece inda, não mais danado, mas semvergonhamente pueril, a gente morrer de repente. Eu jamais que imagino na morte, creio que você sabe disso. Aboli a morte do mecanismo da minha vida e embora já esteja com meus trinteoito anos, faço projetos pra daqui a dez anos, quinze, como se pra mim a morte não tivesse de “vim”... como todos pronunciam. A idéia da morte desfibra danadamente a atividade, dá logo vontade da gente deitar na cama e morrer, irrita. Aboli a noção de morte prá minha vida e tenho me dado bem regularmente com êsse pragmatismo inocente. Mas levado pela sua carta, não sei, mas acho que não me desagradava não, me pôr em contato com a morte, ver ela de perto, ter tempo pra botar os meus trabalhos do mundo em ordem que me satisfaça e diante da infalível vencedora, regularizar pra com Deus o que em mim sobrar de inútil pro mundo.
In: MÁRIO DE ANDRADE. Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1958, p. 269-270.)


Acho eu que é assim que tem que ser. Viver intensamente essa vida porque não se sabe quando se parte. Viver,amar e beijar.Viver,amar e amar.Respirar,sentir e desejar.A nossa vida é feita desses verbos. Há os outros também, como o cansar,adoecer,sofrer,chorar,doer.Mas esses verbos deixemo-os de lado,que a vida se faz mais urgente.Que a vida precisa ser vivida até à ultima gota.


Ps: Adorei saber que a máquina que Manuel Bandeira usava para escrever suas cartas e textos se chamava Manuela.Olha ela aqui:                                                                                                                                                       Adorei saber dessa minha xará tão ilustre! :P





13 de novembro de 2009

Diálogos


Arrufos - Belmiro de Almeida, 1887.

O teórico: "A nova geração de pintores saudou Arrufos como se fosse uma revolução. Gonzaga Duque, que serviu de modelo para o homem, exclamou que, no Rio, ainda não se havia pintado um quadro importante como esse. Talvez por isso, causou um pequeno escândalo na sociedade carioca, entre patronos do museu e a aristocracia do Império. Arrufos reside atualmente no Museu Nacional de Belas Artes, na Cinelândia, no Rio de Janeiro." 


O marido: "Não adianta Isolda,não adianta. Eu te disse que da próxima vez que tu não tirasses meus sapatos ao chegar em casa eu nunca mais te deixaria ler aqueles livros de amor que tu tanto gostas.Não adianta,não posso permitir que tu vistas aquela cinta liga rosa que tua irmã trouxe de Paris e nem posso permitir que sentes ao meu lado da próxima vez que o coronel Melquíades vier me visitar.E nem adianta chorar que não te darei o prazer de minha companhia quando eu for fazer apostas no Jóquei ou reunir-me com amigos no sarau do Ouvidor às quintas...Lugar de mulher é em casa cuidando dos filhos e das roupas e comida do marido"


Ela: "Idiota,vou ficar aqui o tempo que for preciso.Enfiarei minha cara neste sofá e fingirei chorar até que ele se canse, até não poder mais. Ah Euzébio como te odeio! Ah como tú hás de me pagar tudo o que tem me feito sofrer. Biltre! Pulha! Acaso pensas que fico sozinha em casa a tricotar quando tu sais? Acaso pensas que quando tu te ausentas eu não recebo visita alguma? Como és idiota caro marido! Saiba você que  quando tu vais ao jóquei é outro, o cavalo que cavalga em mim e quando no teu sarau estás a ouvir as vozes de poetas vazios e obsoletos, eu estou aqui a ouvir entre os ouvidos palavras quentes e ainda mais alvissareiras!Continua a fumar pilantra! Que este cigarro ainda há de te matar! (e que seja breve!)Lugar de mulher é em casa cuidando dos filhos e das roupas e comida do marido? Não me faça rir, ridículo sacripanta!Que eu pago a Luzia para ficar com a Adrianinha e o Euzébiozinho, e é ela mesma que cozinhas para tu! Como os homens são idiotas ahahahaha (risada histérica) Que homem rídiculo meu Deus!"


Conclusão: Para cada amor vazio, haverá sempre a procura por novas ilusões, ainda que fugidias, em contrapartida. Porque o amor é feito de duas vias. E se não traz felicidade acaba sempre por trazer à tona sonhos e desejos a muito escondidos. Amor e posse nunca foram bons companheiros. Hoje, amanhã, no século passado.

 
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