22 de dez. de 2009

A felicidade



"A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar"



Porque se a gente não impele vento ao que acreditamos, nossos sonhos estarão sempre à deriva e nunca pousarão no espaço idílico da realização. Porque se a gente não acredita e não tira do mais recôndito da alma forças, mesmo quando tudo parece ir mal, não haverá ninguém que nos levante a não ser nós mesmos. E se por ventura pensarmos em desistir mas ainda assim deixarmos que este vento nos impile a voar seremos tudo que quisermos. Seremos rei, fada ou gnomo, seremos senhores e donos do mundo, seremos o que quisermos ser, mesmo que pareça impossível, mesmo que soe desconexo com o que vivemos, com a nossa realidade ou cotidiano, porque como diria o sábio pessoa, "somos do tamanho do que vemos, e não do tamanho da nossa altura."

18 de dez. de 2009

Liniers

Liniers ou Ricardo Liniers Siri (nascido em Buenos Aires em 15 de novembro de 1973) é um quadrinista argentino. Ele é descendente do vice-rei de Buenos Aires Santiago de Liniers. Ávido leitor, muito novo conheceu a obra de Hergé, Goscinny e Uderzo, Quino, Héctor Germán Oesterheld, Francisco Solano Lópes,Charles Schulz e Herriman. Estudou publicidade, mas não se dedicou a ela. Começou a desenhar para fanzines, e logo passou a desenhar para meios de comunicação profissionais, como Lugares, ¡Suélteme!,Hecho en Buenos Aires, Calles, Zona de Obras, Consecuencias, ¡Qué Suerte!, Olho Mágico, 9-11 Artists Respond, Comix 2000 e outras obras.

O que sei é que Liniers se mostra à mim como um dos mais talentosos quadrinistas dos últimos tempos. Porque alia em seu traço, poesia, criatividade e lirismo, trazendo à tona personagens emotivos, poéticos e pensantes. Numa atmosfera nonsense onde tudo é possível, ele traz para nossos olhos uma festa de cores e sabores, pincelada com pitadas de bom gosto e argúcia; e o melhor, numa língua que a mim é muito cara: o espanhol. Deliciem-se! :


AutoLiniers: blog do artista onde se publica a tira Macanudo.
Liniers: Cosas que te Pasan si Estás Vivo: blog onde o artista publica diversos trabalhos.
Fonte: wikipédia.

12 de dez. de 2009

Do amor


Não falo do amor romântico, 
aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento. 
Relações de dependência e submissão, 
paixões tristes. 
Algumas pessoas confundem isso com amor.
Chamam de amor esse querer escravo, 
e pensam que o amor é alguma coisa que pode ser definida,
explicada, entendida, julgada. 


Pensam que o amor já estava pronto, 
formatado, inteiro, antes de ser experimentado. 
Mas é exatamente o oposto, para mim,
que o amor manifesta.
A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído, 
inventado e modificado. 
O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita. 
O amor é um móbile. 
Como fotografá-lo? 
Como percebê-lo?
Como se deixar sê-lo? 
E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor não nos domine?
Minha resposta? 
O amor é o desconhecido. 
Mesmo depois de uma vida inteira de amores, 
o amor será sempre o desconhecido,
a força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão.
A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação. 
O amor quer ser interferido, 
quer ser violado, 
quer ser transformado a cada instante.
A vida do amor depende dessa interferência.
A morte do amor é quando, diante do seu labirinto, 
decidimos caminhar pela estrada reta. 
Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos, 
e nós preferimos o leito de um rio, 
com início, meio e fim. 
Não, não podemos subestimar o amor não podemos castrá-lo.
O amor não é orgânico. 
Não é meu coração que sente o amor.
É a minha alma que o saboreia. 
Não é no meu sangue que ele ferve. 
O amor faz sua fogueira dionisíaca no meu espírito.
Sua força se mistura com a minha e 
nossas pequenas fagulhas ecoam pelo céu 
como se fossem novas estrelas recém-nascidas. 
O amor brilha. 
Como uma aurora colorida e misteriosa,
como um crepúsculo inundado de beleza e despedida, 
o amor grita seu silêncio e nos dá sua música. 
Nós dançamos sua felicidade em delírio porque somos o alimento preferido do amor, 
se estivermos também a devorá-lo.
O amor, eu não conheço. 
E é exatamente por isso que o desejo e me jogo do seu abismo, 
me aventurando ao seu encontro.
A vida só existe quando o amor a navega. 
Morrer de amor é a substância de que a Vida é feita. 
Ou melhor, só se Vive no amor. 
E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto.

Paulinho Moska in:Do Amor 

10 de dez. de 2009

Belo Horizonte


                                                        me encanta
             essa cidade         me espanta
                                       me grita

                           eu menina do interior
sou tomada por essa cidade
sou bebida 
                  e degustada
 e depois cuspida fora
 tornando-me
uma pessoa 
                       diferente

porque nesta cidade 
colorida
nesta cidade cheia de gente e luz
eu aprendo a ser mais eu
no que re e n c o n t r o 
e descubro
no que revejo 
e no que me 
delicio

essa cidade me lê

8 de dez. de 2009

Amar


É como subir num parapeito, se jogar em queda livre e 
cair,
cair 
e cair
 sem ver final.



Amarrar fitas do senhor do Bonfim 
num ventilador e ver seus pedidos entregues ao vento ainda que em pensamento...



Subir uma escada gigante e perceber, já lá em cima, 
que se esqueceu o chapéu de sol e sair mesmo assim sem ele,



                       e queimar a pele, e queimar a voz.



Ser feliz sem pressa, porque há um quê nos apaixonados que os deixam num ritmo particular e lento
tipicamente pueril e doce,como se a vida inteira parasse para ver e ler nos nossos olhos a verdade.



É correr perigo, beber nos olhos da noite, sair à toda na rua e ter medo,
 melhor, ter medo de ter medo e ter medo mesmo assim...



É como sentar num banco sujo de tinta



beber café sem açúcar



e morrer de vontade no fim da tarde...



É ter fome no inverno e sede no verão
é dançar de olhos fechados e sonhar de olhos abertos
ou até mesmo escrever palavras desconexas num blog igualmente desconexo



como estou a fazer
agora.

18 de nov. de 2009

Palavras com asas

Carta a Manuel Bandeira, S.Paulo, 28-III-31

Manú,
Bom-dia. Amanhã é domingo pé-de-cachimbo, e levarei sua carta, (isto é vou ainda relê-la pra ver se a posso levar tal como está, ou não podendo contarei) pra Alcântara com Lolita que também ficarão satisfeitos de saber que você já está mais fagueirinho e o acidente não terá conseqüência nenhuma. Esse caso de você ter medo duma possível doença comprida e chupando lentamente o que tem de perceptível na gente, pro lado lá da morte, é mesmo um caso sério. Deve ser danado a gente morrer com lentidão, mas em todo caso sempre me parece inda, não mais danado, mas semvergonhamente pueril, a gente morrer de repente. Eu jamais que imagino na morte, creio que você sabe disso. Aboli a morte do mecanismo da minha vida e embora já esteja com meus trinteoito anos, faço projetos pra daqui a dez anos, quinze, como se pra mim a morte não tivesse de “vim”... como todos pronunciam. A idéia da morte desfibra danadamente a atividade, dá logo vontade da gente deitar na cama e morrer, irrita. Aboli a noção de morte prá minha vida e tenho me dado bem regularmente com êsse pragmatismo inocente. Mas levado pela sua carta, não sei, mas acho que não me desagradava não, me pôr em contato com a morte, ver ela de perto, ter tempo pra botar os meus trabalhos do mundo em ordem que me satisfaça e diante da infalível vencedora, regularizar pra com Deus o que em mim sobrar de inútil pro mundo.
In: MÁRIO DE ANDRADE. Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1958, p. 269-270.)

Acho eu que é assim que tem que ser. Viver intensamente essa vida porque não se sabe quando se parte. Viver,amar e beijar.Viver,amar e amar.Respirar,sentir e desejar.A nossa vida é feita desses verbos. Há os outros também, como o cansar,adoecer,sofrer,chorar,doer.Mas esses verbos deixemo-os de lado,que a vida se faz mais urgente.Que a vida precisa ser vivida até à ultima gota.

Ps: Adorei saber que a máquina que Manuel Bandeira usava para escrever suas cartas e textos se chamava Manuela.Olha ela aqui:                                                                                                                                                       Adorei saber dessa minha xará tão ilustre! :P


14 de nov. de 2009

Diálogos

Arrufos - Belmiro de Almeida, 1887.

O teórico: "A nova geração de pintores saudou Arrufos como se fosse uma revolução. Gonzaga Duque, que serviu de modelo para o homem, exclamou que, no Rio, ainda não se havia pintado um quadro importante como esse. Talvez por isso, causou um pequeno escândalo na sociedade carioca, entre patronos do museu e a aristocracia do Império. Arrufos reside atualmente no Museu Nacional de Belas Artes, na Cinelândia, no Rio de Janeiro." 

O marido: "Não adianta Isolda,não adianta. Eu te disse que da próxima vez que tu não tirasses meus sapatos ao chegar em casa eu nunca mais te deixaria ler aqueles livros de amor que tu tanto gostas.Não adianta,não posso permitir que tu vistas aquela cinta liga rosa que tua irmã trouxe de Paris e nem posso permitir que sentes ao meu lado da próxima vez que o coronel Melquíades vier me visitar.E nem adianta chorar que não te darei o prazer de minha companhia quando eu for fazer apostas no Jóquei ou reunir-me com amigos no sarau do Ouvidor às quintas...Lugar de mulher é em casa cuidando dos filhos e das roupas e comida do marido"

Ela: "Idiota,vou ficar aqui o tempo que for preciso.Enfiarei minha cara neste sofá e fingirei chorar até que ele se canse, até não poder mais. Ah Euzébio como te odeio! Ah como tú hás de me pagar tudo o que tem me feito sofrer. Biltre! Pulha! Acaso pensas que fico sozinha em casa a tricotar quando tu sais? Acaso pensas que quando tu te ausentas eu não recebo visita alguma? Como és idiota caro marido! Saiba você que  quando tu vais ao jóquei é outro, o cavalo que cavalga em mim e quando no teu sarau estás a ouvir as vozes de poetas vazios e obsoletos, eu estou aqui a ouvir entre os ouvidos palavras quentes e ainda mais alvissareiras!Continua a fumar pilantra! Que este cigarro ainda há de te matar! (e que seja breve!)Lugar de mulher é em casa cuidando dos filhos e das roupas e comida do marido? Não me faça rir, ridículo sacripanta!Que eu pago a Luzia para ficar com a Adrianinha e o Euzébiozinho, e é ela mesma que cozinhas para tu! Como os homens são idiotas ahahahaha (risada histérica) Que homem rídiculo meu Deus!"

Conclusão: Para cada amor vazio, haverá sempre a procura por novas ilusões, ainda que fugidias, em contrapartida. Porque o amor é feito de duas vias. E se não traz felicidade acaba sempre por trazer à tona sonhos e desejos a muito escondidos. Amor e posse nunca foram bons companheiros. Hoje, amanhã, no século passado.

6 de nov. de 2009

Um pouco de mim



A Karina do blog Achados e perdidos me indicou para este que vai ser o meu primeiro meme por aqui. Regras do meme:

1. Ilustrar a postagem com o selo acima
2.Dizer quem te indicou
3.Indicar outros blogs
4.Completar as frases que estão em vermelho

a)Eu já amei quem não merecia,me apaixonei por alguém através de uma foto,caí de cabeça numa paixão,esqueci o que ia dizer e disse o que queria esquecer
b) Eu nunca usei drogas, coisas ilícitas,andei de bicicleta ou de bonde
c) Eu sei que a vida é feita de caminhos e escolhas e que são exatamente eles que nos fazem.
d) Eu quero viver plenamente a minha vida com meus desejos,faltas,falhas e farpas
e) Eu sonho em me realizar no trabalho e me mudar para uma cidade grande onde encontrarei mais amigos,discos e livros!

Indico os blogs: Como sei que muita gente não gosta de memes,eu indico os blogs meus favoritos que queiram participar.Confesso que sou meio sem jeito com essas coisas! ;)

2 de nov. de 2009

Filmes que nos contam

Agora e sempre, de 1995, é o tipo de filme que marca a vida de quem o assiste, de um jeito ou de outro. Acho que todos nós por um período na vida,temos aqueles amigos com quem podemos contar para qualquer situação.Por mais que hoje escolhamos viver sós ou mais afastados,há sempre um momento na vida em que estivemos acompanhados por um grupo,onde fazíamos tudo juntos,desde trabalhos de equipe à planos mirabolantes de como driblar aquelas matérias chatas.Quem é que nunca teve um bando de amigos barulhentos quando estava na adolescência?Quem é que nunca fez parte de uma galera que pensava como a gente e de quem absorvíamos o linguajar,as maneiras de agir,vestir e sentir?Hoje,lembrando de filmes que me marcaram, senti saudade de rever a história de 4 adolescentes típicas que depois de 25 anos sem se ver, se reencontram e relembram aquele que foi para elas o melhor verão, a melhor época de férias. Esse período em especial é marcado por perdas, descobertas do primeiro amor,primeiras decepções,primeiros medos,primeiros sonhos...E pra mim o que torna esse filme ainda mais especial é tê-lo assistido junto de minhas 4 melhores amigas de toda uma vida.Lembro que foi numa tarde quente a uns bons 14 anos atrás que juntei nós cinco aqui em casa e trouxe da locadora que foi meu primeiro emprego, a fita vhs novinha e ao inseri-la em meu vídeo cassete nos inseri também num mundo de sonhos que nos fazia lembrar de nossa própria história,tão parecida com aquela da tela,pois nós também éramos meninas descobrindo a vida e acima de tudo descobrindo até onde queríamos chegar.Hoje os anos passaram, 3 das 5 já são mães e cada uma tomou um rumo diferente...Mas apesar de tudo o que eu acho mais bacana é que à despeito do tempo que insiste em passar, a nossa amizade prossegue inabalável.Basta nos vermos de novo e nos juntarmos em grupo,para que tudo venha à tona e para que vivenciemos o quanto é bom estar em conjunto, o quanto é bom estar entre pessoas que nos conhecem a exatos 18 anos.Cada uma delas tem um espaço guardado e cativo em meu coração e a nossa fidelidade é genuína, sou fiel à elas e elas à mim,desde sempre.Desde o primeiro dia que estivemos juntas,
em comunhão.

30 de out. de 2009

Rito de passagem

É como trocar de pele.Você raspa as velhas opiniões,lava a casca endurecida e varre com afinco as poeirinhas guardadas nos cantos.E assim percebe claramente quando um ciclo se fecha.A mudança de um emprego, uma casa nova,um novo amor,um novo objetivo ou curso.Passagem.Passamos de um estado à outro,de uma situação à outra e as vezes só nos damos conta quando somos pegos pela novidade ao nos olharmos no espelho:"Onde foi parar o rosto que estava aqui?".E assim a vida se renova e damos início a mais um novo ciclo.Essa semana,depois de muito tempo afinal,percebi que eu havia feito o rito de passagem.E cá estou eu,pronta para escrever com novas cores,o livro vazio que agora está em minhas mãos.É hora de arregaçar as mangas e me deixar ser invadida por esses novos ares e deixar também que eles me tragam novas situações,pessoas e sonhos.Mudar é bom,transpor o outro lado é imprescindível.Um rito de passagem obrigatório para quem quer deixar a velha vida para traz e permanecer inteira.E lá vou eu caminhar e passar para o outro lado da ponte.Sinto os comichões de curiosidade:"O que me espera do outro lado"?

Reinvenção


A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meireles

Ai vida minha,deixa eu te reinventar? :)

10 de out. de 2009

Balões

É como soltar um balão no espaço aberto do céu.Ver ele que antes estava aqui,na nossa mão,ir se expandindo e voando para o que antes era apenas hipótese.As vezes é assim que eu me sinto em relação à certas coisas que me acontecem.É como a criança que numa manhã nublada não quer acordar para ir à escola,é como quando nos acontece algo bom e não queremos voltar à realidade.É como comer o melhor doce e ser tomado pela culpa de ter que fazer dieta. Quando a gente faz algo que não queria fazer, quando a gente é relapso com alguém que amamos, a gente se esforça para não enxergar o que está à nossa frente e não queremos nos ver no grande espelho que a nossa consciencia nos mostra. Em dias assim o que mais queria era voltar no tempo, era recuperar os dias de festa, os dias de vento brisa. Mas acredito que no final das contas,são justamente esses momentos que nos impulsionam pra frente, que nos fazem crescer e amadurecer nossa alma.Sem eles,acho que seria muito difícil sobreviver nesse mundo em que somos postos à prova continuamente.Precisamos das cicatrizes.São elas que demarcam nosso caminho.E ainda que doloridas,não nos deixam esquecer do que fizemos ou do que nos fizeram.Toda vez que machuco alguém que eu amo, eu preciso morrer e renascer novamente,preciso dormir um sono profundo,para então acordar renovada.Ai quem me dera ter todas as respostas!Mas se teimo e se insisto, o que a vida me dá,são apenas mais perguntas.Enquanto isso,o balão que um dia foi meu risca o céu.Se um dia voltará pra mim eu não sei.Se não volta,leva pedaço de mim. E se volta,traz pedacinho de si que um dia foi meu.E quem disse que não somos feitos de fragmentos de outras pessoas?Balões coloridos cheios de ar? do nosso ar?

25 de set. de 2009

Tente!



Aprendi uma vez a olhar o mundo de cabeça para baixo.
Já pensaste como é que pode funcionar em determinados momentos?
O que é ruim 
fica bom,
o que é infeliz
 fica feliz,
o que é triste
 fica alegre e,
 quando a gente olha para o chão,
vê o céu.

Jane Tutikian In: A rua dos secretos amores

17 de set. de 2009

Mermaids

Já era tarde alta quando a mais animada delas decidiu que era hora de ir brincar na beira do mar.Tinha sido um dia difícil,de mar revolto,cheio de ondas grandes que batiam no paredão de pedra,perto de onde viviam.A mãe pôs a mão nos olhos,como a esticar o olhar e disse-lhes que não se afastassem,pois Netuno parecia enfurecido.A família Aquamarina era mesmo engraçada: as trigêmeas,uma mãe prestimosa e um pai bonachão que vivia fora de casa, a desbravar os sete mares.Era um homem virtuoso e cheio de amor,dizia a mãe se derramando em cuidados.Marane nascera primeiro e sua paixão eram os bichos que moravam no fundo do mar,queria conhecer o mundo,mas sabia que antes teria que conhecer o seu quintal.Louca por estrelas do mar se derramava em sonhos quando as tinha na palma da mão.Já a Maraíza, a segunda,era a mais curiosa.Tinha sempre perguntas na ponta da língua e a mãe se via às voltas com seus questionamentos sempre corriqueiros:"Nosso mundo pode ser preso numa concha?","É verdade que Netuno tem 7 esposas?","Como se fazem as sereias?".Gostava de ter o mundo acerca de si e achava a vida um eterno mistério sempre envolta em acontecimentos que nem sempre tinham explicação.Já a Míriade,a mais ajuizada de todas, cabia a curiosidade acerca das coisas da terra dos homens.Toda e qualquer criatura que tivesse conhecido a terra lhe encantava e ficava horas à conversar com estes seres,indagando,discutindo,devaneando.As três irmãs eram cada uma à seu jeito, amantes da vida, e na tarde em que foram pegas numa rede de marinheiro,na tarde em que sufocadas de terror,foram parar numa frigideira escaldante da casa de um pescador,descobriram tarde demais que o homem,salvo algumas raras excessões,não estava preparado para o encontro com os seres oníricos de além mar.Não tinham olhos para vê-los, não mais acreditavam em sonhos de água.E nessa tarde que um pescador se vangloriou de ter pegado três peixes de vez,(pequenos demais,dissera,mas que davam para matar a fome) no fundo do mar uma mãe chorava a ausência de suas três filhas,pedaços de vida que nunca mais voltariam pra casa.

7 de set. de 2009

Se...

Se eu pudesse viver a minha vida de novo eu faria tudo igual. Se eu pudesse viver a minha vida sem pressa eu teria sido feliz.Acho eu que a pressa do dia a dia,aos poucos, e cotidianamente,matou toda a minha esperança de ser alguém. O fato é que quanto mais eu corria, mais eu via que não conseguia agarrar o que eu tanto queria ter.Mas o que é mesmo que eu queria?O que eu desejava?Se eu pudesse não teria te dado aquele beijo na chuva,naquele dia em que os ventos pareciam glaciais.Se eu pudesse só teria te dado aquele beijo na chuva,naquele dia em que os ventos pareciam glaciais.E não teria acontecido mais nada,e não teria acontecido esse tudo e esse vazio não estaria mais aqui.Esse vazio que acabou por se transformar em coisa doída e sem jeito de passar.Eu só queria ir pra cama com você.Eu te amei desde o primeiro dia.Se eu pudesse teria comido mais doces,o medo de diabete não resultou em nada,nunca a tive.Se eu pudesse teria ido ao exterior quanta vezes meu coração quisesse. Mas, se eu nunca tive dinheiro como eu poderia ter ido ao exterior?Ah! quanta coisa deixei de fazer por medo de morrer, por medo de perder o ônibus,por medo de perder o emprego,por medo de adoecer,por medo de perder a paz,por medo de conhecer o novo,por medo.Quanta coisa ficou pra trás,quanta gente!Aqui nesse apartamento dessa cidade que nunca pára e que tem milhares de lugares para se conhecer,aqui na capital dessas minas onde vim parar depois de tanto viajar, aqui, de onde estou a escrever freneticamente agora,aqui.Esta cidade foi a única que trouxe paz ao meu coração.Foi para ela que vim depois de muita discussão com meus pais,depois de muito tentar,depois de tudo.Aqui eu vivi o tudo e o nada,tive meus amores secretos e outros nem tanto.Tive meus trabalhos queridos e de outros não posso dizer o mesmo.Aqui fui feliz, à minha maneira.Mas depois do beijo glacial nada mais foi o mesmo.E eu, que tinha medo de fazer o exame no urologista,descobri que tinha uma doença incurável.Que manchava o sangue e minha alma.Que fazia doer e pensar nessa vida que vivi.Se eu pudesse correria atrás de você nessa manhã de segunda de feriado nacional.Se eu pudesse eu tiraria minha roupa no meio da praça da liberdade,só pra ver se saía no jornal com as manchetes:"Homem louco tira a roupa na praça da liberdade e afirma:"Agora eu tenho coragem!".Mas eu não saí de casa,não tirei a roupa na praça, e não tive coragem.No mais, estou morrendo e o barulho dessa cidade que não pára me enlouquece.Quisera eu somente o silêncio que aqueles que sabem que vão morrer possuem.O silêncio da fala,da alma,da pele morta,do desejo frio.Mas não, à despeito de tudo,meu coração não cessa de bater,nesse "tum-tum" entontecido,nesse bate-bate desvairado,até que chegue a hora, até que eu pare de escrever,de sentir, de viv...

31 de ago. de 2009

De meninos e bolas de gude


Senhores de si e do mundo que o cercavam, lá iam eles pela rua com suas riquezas no bolso. Asas nos pés,enlevo de quem tem toda a vida pela frente. E tinham. Eu podia ficar a tarde todas vendo-os jogar e era incrível como aquelas bolas de gude ganhavam um status de coisa mítica, de coisa feita de sonho e devaneio. Pareciam reis,eles e tantos outros, com aquela melodia feita de vozes infantis que gritavam a todo momento,seja quando ganhavam e principalmente quando perdiam alguma partida. Nunca entendi bem como funcionava.Mas aquele que possuía apenas uma gude ao sair de casa poderia ir “matando” inimigos e voltar com o bolso cheio das benditas bolinhas.Aritmética das aritméticas!Mágica das mágicas!
Com um pouco de sorte e um outro tanto de talento,lá iam para os bolsos esferas coloridas e imagéticas,azuis,verdes,amarelas,multicores.E eu sentia um orgulho bobo,eu menina de tranças, embevecida com a felicidade dos meus dois manos…
As vezes,em dias como o de hoje,bate uma saudade tremenda daquela época.Tempo em que eles eram meus.Tempo em que os tinha por perto e à mão e que um de meus passatempos favoritos era vê-los brincar.Meus irmãos,pequenos reis da bola de gude,eu princesa envolta em meus contos de fadas.E quem diria que o tempo haveria de nos separar?Ah! meninos grandes homens!Saudade daquele tempo em que a coisa mais importante com o que se preocupar era estar ali,com a vida a passar por sob minhas retinas e com o enlevo de meus dois meninos grandes,
cheios de si,
cheios de vida.

24 de ago. de 2009

Sonhadores

Todos nós temos necessidade de ser olhados.
 Podíamos ser divididos em quatro categorias 
consoante o tipo de olhar sob o qual desejamos viver.
 A primeira categoria é a dos que procuram 
o olhar de um número infinito de olhos anônimos
 ou, por outras palavras, o olhar do público.
 Na segunda categoria, incluem-se aqueles que não podem viver
 sem o olhar de uma multidão de olhos familiares. 
Vem em seguida a terceira categoria, 
a categoria daqueles que precisam 
estar sempre sob o olhar do ser amado
A sua condição é tão perigosa
 como a das pessoas do primeiro grupo.
 Se os olhos do ser amado se fecham,
 a sala fica mergulhada na escuridão.
 Finalmente, há uma quarta categoria, 
bem mais rara, que são aqueles que vivem
 sob os olhares imaginários de seres ausentes. 
São os sonhadores.
Milan Kundera em “A insustentável leveza do ser”

20 de ago. de 2009

Cotidiano


Acordei.Estou viva!Mais 20 minutinhos. Ai que preguiça.Levanto.
banheiro."meu cabelo tá uma droga,e essas olheiras?!".Visto a roupa."tenho que emagrecer!".Mochila.relógio.anel.cama bagunçada."Tchau quartinho!"Porta,mãe,cara inchada.Nada de café,não consigo comer às 6 da manhã.Tchau,ponto de onibus,ônibus lotado,fico de pé."Odeio gente que não toma banho de manhã!Odeio gente que não escova o dente de manhã".Metade do caminho.ônibus esvazia.Posso sentar.Sono,muito sono.mais meia hora,chego no destino.Desço,ando.Escola."Bom dia!". 1ª aula,2ª,3ª.Intervalo.sms."papo de professor é chato as vezes,em outras não"4ª aula"esses meninos não querem nada!",5ª aula.Ufa!Hora do almoço.sms.Chega a tarde."Boa tarde"Mais 4 aulas."sms.Quero ir pra casa!"Vou.Ponto de ônibus.Mochila cheia de papéis.Ônibus demora.sms.No caminho pra casa
me encho de sonhos e penso neles com toda a força do meu coração.
queria estar longe,em outro lugar,queria fazer a diferença!"Um dia farei!"Chego em casa.
mãe,pai.quarto.banho.tv.internet.msn.coisas para corrigir e para ler,mas cadê coragem?
fico com sono,leio um pouco,deito.insônia.O dia amanhece.Acordei.Estou viva?

8 de ago. de 2009

Doce


As vezes eu queria ser como um algodão doce:
leve,colorido e doce,lógico.
E quando, na ânsia e avidez que só os que gostam do doce
que só um algodão doce pode ter, me engolissem,
eu estaria ali, dentro da barriga de alguém,
colorindo aquele mundo interno com fulgor
e deixando um rastro de minha cor
por todo o corpo daquele que me escolhesse,
num rastro que iria da boca até o coração.
Da ânsia de comer algo à nobreza do permanecer.
Um amor leve.
Azul talvez.
Azul e leve,
como a vida deveria
s
e
r
.

1 de ago. de 2009

O leitor



Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante. (Clarice Lispector)
Palavras que habitam o silêncio.Acho que poucas pessoas no mundo experimentam um dia a adorável sensação que é a de se ter alguém que pelo menos uma vez na vida nos ouça de verdade.Isso porque há na atualidade uma total busca pelo que é rápido e solúvel, e ouvir verdadeiramente,sentar e esperar palavras brotarem dos lábios de outra pessoa é, apesar de louca aventura, quase impensável nos dias urgentes em que vivemos.Esse filme me fez pensar...Como era o meu mundo antes que eu soubesse ler?Como eu olhava as coisas à minha volta antes que soubesse seus nomes?E depois que soube,como lidei com as mudanças que isso me trouxe?Definitivamente este é o tipo de filme que me toca mais nos silêncios que sucita,do que nas vozes que me fala.A história de uma mulher e seus amantes,personificados na figura do rapaz que lê para ela,e nas palavras que começam a permear o seu mundo comum e solitário.O rapaz e as palavras que saíam dele eram os seus amores,e esse sentimento venial pertencia à ela,que entre absorta e inquieta deixava-se escravizar,ou antes escravizava o rapaz que descobria em contrapartida dois amores,o amor por ela e pelo sexo e o amor por algo dentro de si que ele não conhecia."Não sabia que era bom em algo",ele diz.O resto da trama se desenrola preguiçosamente, e o que nos fica é a singular história de amor mal costurada,daquelas histórias de amor que mal acabadas,permanecem sempre adiadas,como um daqueles contos que lemos e que acabam na melhor parte,entre uma vírgula e um ponto final que não veio.E a realidade de não saber o que está escrito num papel vira quase nada quando se tem a coragem de ler o outro,de ouvir o outro e de se deixar deleitar pela alegre fusão que há entre uma voz e letras que do papel,uma vez lidas,ganham ares de festa e se tornam músicas, e se tornam confetes,soltas que estão no ar acizentado de nossas vidas sozinhas.Palavras que quando lidas em voz alta são como pássaros no inverno:Voam para o lugar mais quente e próximo que encontram e que no filme em questão é o coração da mulher, que hávida por emoção,ouve o seu amante,para logo em seguida deitar-se com ele,emudecendo então.Porque era nesse momento,nesse exato momento em suspenso,que as palavras antes ouvidas,iam morar dentro dela,em sementes de sêmem.

18 de jul. de 2009

Ilha

"Ilha não é só um pedaço de terra cercado de água por tudo quanto é lado. Ilha é qualquer coisa que se desprendeu de qualquer continente. Por exemplo: um garoto tímido abandonado pelos amigos no recreio, é uma ilha. Um velho que esperou a visita dos netos no Natal e não apareceu ninguém, é uma ilha. Até um cara assoviando leve, bem humorado, numa rua cheia de trânsito e stress, é uma ilha. Tudo na gente que não morreu, cercado por tudo o que mataram, é uma ilha. Toda ilha é verde. Uma folha caindo é ilha cercada de vento por tudo quanto é lado. Até a lágrima é ilha, deslizando no oceano da cara."
(Oswaldo Montenegro)

12 de jul. de 2009

Ela gostava da chuva e a chuva gostava dela.
E toda vez que chovia era assim:
A água que descia do céu banhava o corpo envolto em manta
e a água que jorrava dentro dela encontrava a outra água,
a chuva, e juntas, banhando-se mutuamente,
elas se beijavam.

8 de jul. de 2009

Quando se começa a morrer

"A consciência se expressa através da criação. Neste mundo nós vivemos dentro da dança do criador. Dançarinos vem e vão num piscar de olhos, mas a dança sobrevive. Em muitas ocasiões quando eu estou dançando, eu me sinto tocado por algo sagrado. Nesses momentos, eu sinto meu espírito subir e se fundir com tudo o que existe. E me transformo nas estrelas e a lua. E me transformo no amante e o amado. E me transformo no vencedor e o vencido. E me transformo no mestre e o escravo. E me transformo no cantor e a canção. E me transformo no conhecedor e o conhecido. E continuo a dançar então, esta que é a eterna dança da criação.

O criador e a criação se fundem numa plenitude de alegria. E eu continuo dançando... e dançando... e dançando. Até que haja apenas... a dança." Michael Jackson in: Dangerous,1991.

Acho eu,é uma teoria que tenho,que não morremos quando chega a nossa hora. Morremos antes, aos poucos e no dia do nosso velório o que as pessoas veem é só uma decima parte do que somos e fomos. Morremos quando morrem nossos pais, nossos amigos, nossos filhos. Morremos quando um lugar que amamos não existe mais, quando aquela praça da nossa adolescência é demolida, quando aquele coreto de nossa memória é engolido por um prédio de mil janelas ou o terreno de nossa escola primária vira estacionamento rotativo. Há pessoas que por mais que nunca saibam, fazem a diferença na vida de alguém. Michael era esse tipo de pessoa. Apesar da vida conturbada, ainda assim, o que vinha à tona sempre era o seu talento, brilhando sempre mais do que suas excentricidades. Fez parte da minha vida e lembro que aos 4 anos, ao ver o clipe Triller ser exibido no fantástico, corri para debaixo da minha cama, num misto de medo e fascinação. Em cada pedaço de minha infancia ele estava lá e nos anos da adolescencia suas fotos enfeitavam uma pasta de recortes juntados com carinho ao longo dos anos. Há algo nas pessoas que viram mitos. Emblemas que são, levam consigo a marca da época em que viveram e com sua morte, findam também um período da história.Ainda não chorei o que preciso chorar e talvez sempre o faça toda vez que vir alguma imagem dele que me é cara. Morri um pouco hoje. Isso é fato. Michael leva um pouco de mim, sem nunca ter sabido da minha existencia. E eu que era apenas um ponto na multidão de fãs, desejo do fundo do coração que no fim ele tenha sentido paz. E aqui fora tudo será festa pra mim, quando uma de suas músicas tocarem, principalmente se forem de "off the Wall" meu cd preferido.Vai em paz Michael Joe jackson. Criança sofrida,adulto itinerante.

29 de mai. de 2009

Simples assim


Só gostava de usar vestidos baratos, destes que são conseguidos em lojas simples de esquina, num entremear de pernas femininas hávidas por competição. Perfume então, só tinha um, barato também, comprado em revista feminina. É como se ser simples fosse só o que ela sabia ser,como se nunca pudesse ter um escarpan marrom ou uma saia plissada, ou até mesmo um perfume chanel ou uma casa de praia.Sonhava desde pequena em ter um lar, um amor pra chamar de seu lhe enchendo de beijos enquanto ela fazia bolinhos de chuva numa cozinha apertada e cheirando à amor. Simples assim. Porque sabia desde o princípio que de coisas simples se fazia a vida e que não era um colar de jóias ou uma calça Levis legítima que ditariam seu poder de fogo.Mas o mundo, tão difícil ele, achava que as pessoas que mais tinham, mais eram, e era incrível como tudo parecia tão ditado por etiquetas e como aqueles que se diziam seus amigos olhavam-na as vezes com um olhar de pena, como se aquele desapego dela fosse sinônimo de pobreza de alma e ignorância.Ela podia ver por sob suas retinas o quanto parecia estranha às pessoas as vezes e o quanto todas pareciam querer ditar a maneira como ela deveria se vestir,falar,pensar,comer.O que pensar de tudo isto?O que fazer quando sobrevinha a vontade de chorar?

A moça do cabelo desalinhado e do quarto sempre em polvorosa, queria ser poesia, mesmo quando era prosa.E deixava sempre de lado as convenções e os precipícios e quando se olhava no espelho não via apenas uma, mas mil moças de vestidos baratos a acenarem-lhe como se a sua vida fosse sempre infinda e cheia de mistérios e segredos, cheia de aventuras, e quimeras e ritmos incertos.Logo ela que não passava duma moça de sessão da tarde e pipoca com suco de groselha.Logo ela,eterna adolescente que talvez não tivesse nascido para Champignons ou laquês, para vinhos do porto ou Paris no verão.Ai, tudo o que ela mais queria era ser sempre gente,era estar sempre viva,era ter sempre a música como seu guia.Ela queria não ligar para os olhares atravessados, para a carne queimada ou para as dietas que lhe tiravam o sono,o que ela queria era ser feliz,ter dinheiro no bolso e amor no coração.Ora, a moça simples era dona dos mais nobres sentimentos,estes, brilhantes,ricos,ouro em pó,porque a moça descobria cotidianamente,a riqueza que era estar viva e a sabedoria do morrer a cada dia, na certeza de que não adiantava se apegar à coisas materiais,carro do ano ou viagem pra Marte, porque no fundo a vida, exigia apenas coragem. E esta, ela tinha de sobra.Simples assim.

17 de mai. de 2009

Descobri,




que os que secam,os que ardem de desejo e os que queimam de vontade são os mais felizes.Mais felizes porque põem pra fora o que lhes vai na alma,sem pensar ou conjecturar sobre o que outras pessoas vão achar ou fazer a respeito.
Descobri também que os loucos são os mais livres.Livres,porque a loucura por si só, já lhes dá passaporte para fazerem o que bem quiserem, funcionando também como bálsamo e perdão prévio, para as loucas insanidades cotidianas que eles venham a cometer.Descobri em seguida, que por mais que a gente se empenhe, se prepare, e se dedique a alguma coisa,vai ter sempre alguém que não goste da gente, que nos deseje o mal, que nos sinta inveja e que não suporte nosso cheiro,torcendo o nariz quando passarmos.Para estas pessoas não significaremos nada além de um nome solto ou idéia vaga,pálida imagem que não fica e/ou permanece.Descobri outras tantas coisas, pensei bem em vários assuntos e eis-me aqui enfunada, e em parafuso, a buscar a maior,mais difícil e mais nefasta descoberta: a descoberta de mim mesma, a descoberta que me leva à mim e que me faça esquecer dos outros por um momento e que me apresente sem reservas ao meu caos e abismo interior que é intangível e por isso mesmo feito de dor,gozo e desvelo.

7 de mai. de 2009

Eu,



gosto daquela hora no finalzinho da tarde quando um bando de pássaros risca o céu fugindo pra outro lugar.Ganhei um concurso de lambada na minha rua aos 8 anos.Tive princípio de pneumonia aos cinco meses, o que me acarretou uma saúde delicada e problemas alérgicos.Sou dengosa e mimada e definitivamente a pessoa mais bagunceira que eu conheço.Gosto de rir alto com amigos e de fazer graça para os mesmos (Só não sei contar piada!).Tenho verdadeira paixão pelos gatos,apesar de amar quase todos os bichos.Quero um dia conhecer a Índia e entender que espécie de ligação sobrenatural é esta que eu nutro por este lugar no mundo.Gosto de xamego,carinho e aconchego quando estou amando(e quando não estou também).Vivo cercada de livros e papéis e estou sempre lendo alguma coisa.Quero conhecer meu país de ponta a ponta,conhecer os lugares que permeiam minha alma e meu coração,no exterior, quero conhecer além da Índia, a África,o Japão e a Oceania.Sou geminiana até o último fio de cabelo e vivo as nuances de ser tão indecisa e intensa.Se amo,amo com força e se odeio,odeio com vontade,não sei viver nos extremos e sim,sempre no olho do furacão.Tenho uma forte ligação com a África,amo comer peixe assado,massas,pães e doces.ODEIO ACORDAR CEDO e fazer algo de forma apressada.Detesto que me pressionem ou me exponham.Sou discreta e não curto chamar a atenção(fora em alguns momentos).Sou calma e meio zen,vivo num mundo paralelo criado por mim e muito dificilmente deixo que as pessoas que me conhecem logo de cara adentrem meu universo particular.Morro de medo da morte,e de tudo que ela ainda há de me tirar um dia.Tenho dificuldade em aceitar perdas e vazios; e ao mesmo tempo sou cheia de precipícios também.Sou falante(falo pelos cotovelos) e tenho também meus momentos de silêncio e de sombras.Gosto de vôlei e futebol na copa.Curto babados,saias e vestidos mas não dispenso uma boa calça jeans.Nunca provei chimarrão e adoro a tecnologia (só não vão conseguir inventar nunca um coração cibernético!).Assisto desenhos animados e com o Montell Jordan na pista não consigo ficar parada.Tenho uma forte conexão com a dança.Quando estou dançando me aproximo de Deus,porque há em cada transpiração uma alegria pela vida e por meu existir.Quero ter um filho e muito mais amigos.Quero me realizar no trabalho,apesar de saber o quão dura é a vida de um professor de literatura neste país chamado Brasil. Quero fazer Doutorado na área de cinema. E por falar nisso, meus diretores preferidos são:Woody Allen,Ivan Reitman,Steven Spielberg,Baz Luhrmann,Tim Burton,Fernando Meirelles, M. Night Shyamalan e Robert Zemeckis.Votei no Lula para presidente,queria entrar para o Greenpeace e morro de medo de cobras e rãs.Adoro o sotaque pernambucano e fazer amor com chuva batendo na janela e no telhado.Queria percorrer o Brasil de bicicleta,porém não sei andar de bicicleta.Nunca usei drogas e sou míope desde os 18 anos.Não sei nadar,amo chocolate,cinema e crianças.Tenho paixão por pessoas,principalmente as interessantes,exóticas e criativas,além é claro,das espirituosas.Queria ter conhecido Anne Frank e gostaria de ter o poder de Blimunda sete luas.Não sou o pequeno príncipe,mas assim como ele,acho que devemos ser responsáveis por aqueles que cativamos.Quero muito ser feliz no amor(e acho que já sou),adoro o número 7, meu ascendente é sagitário e eu odeio Jiló.Ponto final.

22 de abr. de 2009

Garota coca-cola

Sorvia a coca-cola em grandes goles, era sua bebida preferida. E entre um gole e outro pensava na vida, nos muitos que conhecia e nos poucos, porém fiéis amigos. Queria correr o mundo, conhecendo pessoas e suas vidas, novos lugares e maneiras de viver, novos cantos e instrumentos, novas vozes.Era uma garota coca-cola. E trazia em si as marcas e emblemas de uma época cheia de valores falsos e vãos, porque todas as lutas pelas quais pareciam valer a pena já tinham acontecido: a batalha pela liberação sexual, pela ausência de repressão, pela cultura,pelo aparthaid, e liberdade de imprensa. Era uma garota coca-cola, com all stars nos pés, mochila nas costas, mp3 nos ouvidos e todos os sonhos do mundo dentro de seu coração azulado: ter um cachorro, voltar aos EUA de sua adolescencia, ganhar a vida fazendo o que gostava, viver um amor que lhe tirasse da terra e lhe fizesse voar, viver.No guarda-roupa uma infinidade de camisas bacanas, calças jeans e perfumes bons, que o mundo merecia odores agradáveis,pensava, quando refletia no espelho seu rosto juvenil e delicado, onde vez ou outra uma espinha vermelha e chata vinha morar.Nas férias, a garota urbana e rock in roll que gostava de boates underground e sanduíches pedidos por telefone,virava bicho do mato e ficava frente à frente com seu lado mais selvagem. Ia para a casa dos pais, a mesma da sua infância, e se permitia comer fruta tirada do pé, tomar banho de mangueira, passear de bicicleta de noite olhando as estrelas, ir à festas do clube local e tirar fotos de flores silvestres. Depois, já renovada, voltava à cidade grande e à sua rotina de trabalho e estudos e na sua sala de poucos móveis, tocava violão e compunha músicas, olhando a flor de estimação que murchava sem água e que uma vez molhada, magicamente parecia resplandecer de tanta vida...Ah, a garota coca-cola era feita de dores antigas e perenes, de silêncios profundos e incomensuráveis, mas era também feita de sonhos e devaneios, ainda que poucos soubessem desses sonhos, ainda que poucos a soubessem ler.Vez em quando podia-se ver seus sonhos resplandecerem na sua retina brilhante, assim fugidios e dependurados, assim desapercebidos.(É que a garota não percebia que seus sonhos de tanto rodarem dentro de seu peito, em dias de polvorosa, vinham todos aos borbotões, morar aqui fora.)Mas ao perceber, ela logo os engolia novamente, num misto de medo e insegurança. "Se eu coloco meus sonhos todos para fora, como garantir que terei outros, que sonharei novos"?Ah! a garota coca-cola não sabia que sonhos sempre haveriam de existir enquanto houvesse vida e que uma vez realizados, outro punhado deles nasceria,novinhos em folha! Ela não sabia que a vida era mesmo assim: esse emaranhado de surpresas e pequenas festas, esse lugar para onde a gente vinha um dia e que deixava depois de um tempo,a vida enfim era esse conjunto de sensações, de risos e lágrimas, de abraços apertados e de amor feito com amor,a vida era esse complexo ajuntamento de pessoas e opiniões, de música e stress, de abandono e de paz. E à despeito do preço do pão e da queda do dólar a vida era festa, era beijo dado de surpresa, era aniversário comemorado num café, era a espera e era o reencontro.
Eternamente.
Ciclicamente.
Sempre.